Aprendizados

Warren Buffet: As lições do investidor

20/10/2008


As lições do maior investidor da história


A aguardada biografia de Warren Buffett expõe a construção da maior lenda das finanças de todos os tempos. Um homem que conseguiu multiplicar a fortuna em meio às piores crises

 

Buffett: para construir sua fortuna de 50 bilhões de dólares, ele nunca deu ouvidos à maioria

 

Warren Buffett pisou pela primeira vez as calçadas de Wall Street quando era apenas um garoto de 10 anos. Ele partiu em viagem com seu pai da pacata Omaha, no meio-oeste americano, com destino a Nova York para comemorar seu décimo aniversário. Como presente, o pequeno Buffett quis conhecer três lugares — uma fábrica de selos e moedas, outra de trens de brinquedo e, algo bem incomum para um menino de sua idade, a bolsa de valores. Uma cena em especial marcou sua vida dali em diante, um encontro inesperado com um dos homens mais poderosos de Wall Street, Sidney Weinberg, o então presidente do banco Goldman Sachs.

 

Weinberg colocou as mãos em seu ombro e perguntou: “De que tipo de ação você gosta, Warren?” Nos anos seguintes, Buffett dedicou-se obstinadamente a encontrar a resposta. O resultado é uma das estratégias de investimento mais bem-sucedidas e reverenciadas de toda a história. Warren Buffett, hoje um senhor bonachão de 78 anos, tornou-se uma máquina de ganhar dinheiro sem par. Seu sucesso, mantido em mais de meio século de altos e baixos do mercado, virou lenda — uma lenda que ele soberbamente mantém atual.

 

Uma de suas cartadas mais recentes — e surpreendentes — salvou o Goldman Sachs, outrora presidido por Weinberg, de ser engolido pela maior crise financeira das últimas décadas. No final de setembro, Buffett investiu 5 bilhões de dólares no Goldman. Provar que essa aquisição foi mais um tiro certeiro será um dos maiores desafios de sua carreira. Seus ensinamentos, baseados em puro bom senso, surgem como luz num momento especialmente sombrio e incerto do mercado financeiro.


O sucesso acumulado durante décadas transformou Buffett numa espécie de ídolo dos investidores. Todos os anos a concorrida convenção de acionistas de sua holding — a Berkshire Hathaway, que possui participações de empresas como Coca-Cola e American Express — tira a cidade de Omaha de seu marasmo interiorano, num evento tão catártico que as pessoas se referem a ele como um Woodstock do mundo dos negócios. A multidão aumenta ano após ano e, em maio de 2008, reuniu mais de 50 000 visitantes.

 

Quem espera encontrar um típico barão de Wall Street com um terno bem cortado pode se surpreender com um sujeito com a gravata e os cabelos desalinhados e que parece se divertir com a própria popularidade. O maior investidor-celebridade do planeta já cantou em frente à platéia da convenção de acionistas da Berkshire, apareceu em duas novelas americanas (a mais recente delas, em março deste ano, no papel dele mesmo) e por diversas vezes pôs a leilão a chance de almoçar ou jantar com ele no popular site eBay (em todas elas, destinou o próprio cachê milionário a causas filantrópicas).

 

O fascínio que Buffett desperta arrasta uma legião de seguidores que se autoproclamam “buffettologistas”, além de uma lista infindável de livros sobre seu estilo de investimento. “Para seu deleite, ele sempre se manteve no noticiário”, diz Alice Schroeder, a ex-analista de investimento que escreveu a biografia Snowball, lançada no dia 29 de setembro nos Estados Unidos e à qual EXAME teve acesso antecipado. “Mas poucas pessoas puderam conhecê-lo de verdade.”


Os números de Buffett - As cifras que marcam a trajetória do megainvestidor de 78 anos de idade


5 mil dólares eram suas economias aos 16 anos (o equivalente a 53 000 dólares atuais). Nessa época, ele já ganhava mais dinheiro que seus professores


5 dólares foi seu lucro ao vender as três primeiras ações que comprou em sua vida, aos 12 anos de idade, da empresa Cities Service Preferred


31,5 mil dólares é quanto pagou pela casa que comprou em sua cidade natal, Omaha, nos anos 50, e onde mora até hoje


50 bilhões de dólares (1) é a fortuna pessoal do megainvestidor, um dos homens mais ricos do mundo segundo a revista americana Forbes


100 dólares foi o investimento pessoal de Buffett em sua primeira empresa, a Buffett Associates, que ele montou aos 26 anos de idade


(1) Em setembro de 2008

 

Os mandamentos do megainvestidor


Warren Buffett criou um estilo peculiar para gerir seus investimentos. Veja as máximas do “oráculo de Omaha”


1 - “O mercado está aí para servi-lo — não para dominá-lo.

Buffett costuma chamar o mercado financeiro de Mr. Market — um sujeito temperamental que, em geral, oferece ações a preços que não fazem sentido. Segundo Buffett, o humor instável desse personagem não deve influenciar sua visão em relação ao preço das ações. E, de tempos em tempos, Mr. Market oferece a chance de comprar barato e vender caro.


2 - “Seja audacioso quando os outros estão com medo e tenha medo quando os outros estão audaciosos.”


Buffett sempre aproveitou momentos de baixa para comprar. Após uma crise que derrubou a cotação dos bancos no final dos anos 80, ele comprou cerca de 10% das ações do Wells Fargo por metade de seu valor meses antes. Até hoje é um de seus melhores investimentos.


3 - “A principal característica de um bom investidor é temperamento.”


Nada é tão importante para um bom investidor quanto ter nervos de aço. É fundamental, segundo Buffett, não apoiar as próprias decisões no calor do mercado. Ele sempre se refere ao que chama de inner scorecard (algo como “placar interno”), um conjunto de crenças que não mudam ao sabor da opinião da maioria.


4 “Nunca ouço analistas. Wall Street é o único lugar onde pessoas que andam de Rolls-Royce tomam conselhos de quem anda de metrô.”


Quando diz que não dá ouvidos à maioria, Buffett inclui analistas de mercado. Por isso, ele prefere morar na distante Omaha, cerca de 2 000 quilômetros de Wall Street (na mesma casa, aliás, que comprou há cinco décadas por 31 500 dólares).


5 - “A diversificação só é necessária quando os investidores não entendem o que fazem.”


Ao contrário do que prega a maioria, Buffett não diversifica demais seus investimentos — e ele investe em empresas com boa gestão e que atuam em ramos que entende e pode analisar. Nos anos 80, em sua busca por informações, ele fez um acordo com o Wall Street Journal para receber o jornal em casa em primeira mão.


6 - “No curto prazo, o mercado funciona como uma banca de apostas. No longo prazo, tende a ser ponderado.”


De acordo com Buffett, a bolsa pode punir boas ações no curto prazo durante uma crise. Mas, no longo prazo, tende a valorizar empresas com bons fundamentos. Ele costuma dizer que, ao comprar ações de boas empresas, o melhor prazo de investimento é “para sempre”.


A trajetória de Buffett esclarece por que alguém que vislumbra “uma crise longa e profunda” decide abrir uma temporada de compras (veja quadro na pág. 130) no meio da turbulência. Nas últimas semanas, o maior de todos os investidores não apenas injetou 5 bilhões de dólares no Goldman Sachs — comandado por Lloyd Blankfein — como também comprou o controle da empresa de energia Constellation por cerca de metade de seu valor de mercado. Buffett também investiu 6,5 bilhões de dólares para que a fabricante de doces Mars pudesse comprar a concorrente Wrigley numa decisão anunciada em abril deste ano.

 

No total, dedicou cerca de 20 bilhões de dólares em novos investimentos em 2008. “Esse é o tipo de ambiente, que acontece de tempos em tempos, que permite à Berkshire explorar oportunidades de fortalecer seu portfólio”, disse a EXAME Lawrence Cunningham, professor da Universidade George Washington e autor de um livro sobre Warren Buffett. “Buffett tem um foco no longo prazo, em contraste com o curto prazo de executivos e banqueiros que agora estão pagando o preço de suas manobras.”

 

Foi assim também em outras ocasiões, como na compra do banco Wells Fargo, após a crise financeira do final dos anos 80, por metade de seu valor de mercado. Até hoje esse é um de seus principais investimentos — e o banco vem resistindo à crise por não ter entrado em muitas das operações de crédito que levaram seus concorrentes à bancarrota nos últimos meses.


Seu estilo pode ser mais monótono e menos mirabolante do que sugere o tamanho de sua fortuna pessoal, estimada em 50 bilhões de dólares e que o coloca como o segundo homem mais rico dos Estados Unidos, atrás apenas de seu amigo Bill Gates. Buffett é um dos sujeitos mais avessos ao risco que se pode encontrar em Wall Street. A disciplina que segue à risca ao analisar um investimento é quase enfadonha. Buffett se baseia na profunda análise dos fundamentos de uma empresa — e apenas nisso — para comprar seus papéis. Ele era tão obcecado por obter informações sobre as empresas que, durante os anos 80, fez um acordo com o Wall Street Journal para receber os jornais em primeira mão — antes da meia-noite, enquanto os demais assinantes só poderiam ler o diário pela manhã.


Sua biografia também deixa clara uma relação direta entre a obsessão por acumular dinheiro — que se manifestou desde os 6 anos de idade, quando começou a juntar os primeiros centavos com a venda de chicletes — e a frugalidade em seus hábitos de consumo. Buffett não tem motorista e dirige ele mesmo um Cadillac DTS (um veículo zero-quilômetro desse modelo custa cerca de 40 000 dólares). Mora na mesma casa há 50 anos — um imóvel no centro de Omaha pelo qual pagou 31 500 dólares. Enquanto pôde, resistiu a comprar um jato particular. Foi vencido em 1986, quando adquiriu um modelo Falcon 20 — usado, claro. Anos depois, achou uma maneira mais eficiente de resolver a questão. Montou uma empresa, a JetNets, que aluga cotas de aeronaves. Seu passatempo preferido é jogar bridge no computador. Buffett não costuma ir a restaurantes caros e sua dieta se baseia principalmente em amendoim, hambúrguer, batata frita e Coca-Cola.


A resposta de Buffett à crise


Nos últimos nove meses, Warren Buffett investiu cerca de 20 bilhões de dólares em novas participações. Veja os principais investimentos que ele fez nos Estados Unidos

 


5 bilhões de dólares para a compra de cerca de 10% das ações do Goldman Sachs. O negócio foi fechado em 23 de setembro e Buffett pagou pelos papéis cerca de metade do valor que eles tinham há um ano 5 bilhões de dólares pela empresa de energia Constellation. Buffett pagou 26,50 dólares por ação — um quarto de seu valor no final de 2007. O negócio saiu no dia 18 de setembro 6,5 bilhões de dólares para financiar parte da aquisição da fabricante de doces Wrigley pela concorrente Mars. Anunciada em abril, a compra foi efetivada em 25 de setembro

 


A obra mostra também seu lado menos conhecido, o de um sujeito muito hábil no mundo dos negócios, mas inseguro nas relações pessoais. Na juventude, essa insegurança o tornou discípulo do especialista Dale Carnegie, autor do livro Aprenda a Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Buffett usou seriamente suas indicações, até mesmo para conquistar Susan, com quem se casou aos 22 anos. A dificuldade de se relacionar e expressar as emoções, mesmo em sua própria família, acabou com seu casamento. Nos anos 70, Susan chegou a estimular que ele vivesse com outra mulher, Astrid Menks. Um de seus raros amigos é o fundador da Microsoft, Bill Gates.

 

Os dois se conheceram num jantar em 1991. Na época, Buffett não via nenhuma razão para colocar as mãos num computador. Embora tivessem uma visão oposta sobre tecnologia, os dois se tornaram tão próximos que Buffett chegou a se referir a Gates como sua alma gêmea. Uma das convicções que os dois dividiam é que para ser bem-sucedido é preciso ter disciplina. Em 2006, a amizade o fez se comprometer a entregar cerca de 80% de sua fortuna à Fundação Gates, organização filantrópica do empresário — a maior parte será doada depois de sua morte. “A idéia de passar a riqueza de geração para geração vai contra uma sociedade meritocrática”, diz ele, um ferrenho defensor da remuneração baseada no desempenho.

 

Para Buffett, o mundo pode ter ficado um pouco menos previsível. Mas seus principais valores e sua visão de risco são praticamente os mesmos dos tempos de criança, em que vendia chiclete para a vizinhança, batendo de porta em porta. A crise atual vai, novamente, colocar essa cartilha em xeque. No entanto, os “buffettologistas” não duvidam de que esta será uma oportunidade para ele ganhar (ainda mais) dinheiro. “É em tempos de crise como agora, em que todos estão temerosos em relação ao futuro, que ele faz suas apostas mais ousadas”, afirma Keith Trauner, diretor do fundo Fairholme Capital Management, um dos investidores do Berkshire Hathaway.

 

 

Fonte: EXAME





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