Aprendizados

Crise de 2008: O mundo aprendeu com 1929

20/10/2008


O mundo aprendeu com 1929


Governos não podem se ausentar durante crises bancárias - eis uma lição do passado que parece ter sido aprendida



O espectro da maior crise econômica da história do capitalismo rondou as salas do imponente prédio que abriga o Fundo Monetário Internacional (FMI), na capital americana, durante a aguardada reunião anual da instituição, ocorrida entre os dias 7 e 12 de outubro. O que até recentemente soaria como um delírio esquerdista - a afirmação de que o mundo enfrenta uma situação de algum modo comparável à turbulência vivida após o crash da bolsa americana em 1929 - foi tema de discussões de algumas das mais importantes personalidades do mundo das finanças. Enquanto os figurões se reuniam em Washington, Wall Street vivia a pior semana de sua história. Entre os dias 6 e 10, o índice Dow Jones, que mede o comportamento desse mercado, caiu 18% - o recorde negativo anterior havia sido registrado em julho de 1933. Como se isso não fosse assustador o suficiente, os sistemas bancários dos Estados Unidos e da Europa estiveram, mais de uma vez, à beira de um colapso. Boatos de quebradeira generalizada de bancos varreram o mercado. No auge do pânico, nada parecia conter o espiral negativo das bolsas de valores e as más notícias vindas dos bancos dos dois lados do Atlântico. Como afirmou o colunista do Financial Times Martin Wolf, o medo irracional havia substituído a ganância. Seus efeitos eram tão ou mais devastadores e precisavam ser detidos com urgência.



Crise de 2008



Desde então, alguns fatos positivos passaram a servir de contrapeso à maré negativa. Durante a reunião do FMI, que abrigou também o encontro do G7, clube dos países mais ricos do mundo, e do G20, grupo de nações emergentes capitaneado pelo Brasil, o que se viu foi uma firme defesa das autoridades de uma atuação governamental conjunta. Criticados por estar sempre a reboque dos acontecimentos, governos dos países mais afetados tentaram - afinal - tomar o controle da situação. Num esforço inédito e coordenado, os países da União Européia e os Estados Unidos anunciaram medidas de ajuda para resgatar bancos falidos, garantir seus depósitos e irrigar os paralisados mercados privados de crédito. Somente os europeus, até poucas semanas atrás reticentes a aceitar que a crise era também deles, decidiram, no dia 13, colocar 2,5 trilhões de dólares à disposição de suas instituições financeiras. Foi a primeira vez desde o lançamento do euro, em janeiro de 1999, que os chefes de governo dos 15 países do euro fizeram uma reunião de cúpula formal. Dias antes, em meio a intensos embates políticos, os americanos haviam anunciado um pacote de 700 bilhões de dólares para combater a crise financeira - na data do fechamento desta edição, mais medidas eram esperadas. O remédio é amargo. A conta vai ser paga pela economia mundial. Mas parece não haver outro caminho.



É impossível saber o rumo da crise daqui para a frente e poucos analistas acreditam que as medidas adotadas até aqui sejam suficientes para aniquilá-la. Mas elas são o sinal de que o mundo não parece disposto a correr o risco de repetir a história iniciada em 1929. Na época, um misto de inação e de atitudes desastradas tomadas pelo governo do republicano Herbert Hoover, então presidente dos Estados Unidos, ajudou a aprofundar a mais grave recessão americana, com efeitos desastrosos sobre a economia mundial. Em vez de cortar, o governo elevou os juros. Quando o sensato era resgatar os bancos, o governo deixou as instituições quebrar. Além disso, com o objetivo de proteger o mercado interno, instituiu uma taxa de importação que acabou provocando retaliações e reduziu drasticamente as exportações americanas, deteriorando ainda mais a situação das empresas do país. Esse histórico explica o pedido do presidente George W. Bush feito na reunião do G20 em Washington para que os países, com a intenção de se defender da crise, não adotassem medidas isolacionistas.



Duas histórias



A reação dos investidores ao pacote foi de euforia. No dia do anúncio, as bolsas de Nova York, Alemanha e Paris fecharam com alta de mais de 11%. A onda de otimismo teve pouco a ver com os efeitos práticos dessas medidas, já que vai levar algum tempo até que os recursos sejam utilizados pelos bancos e que suas conseqüências sejam sentidas na economia. Ela reflete a percepção de que os governos estão dispostos a tomar medidas sem precedentes para evitar o pior. Um dos principais objetivos das medidas anunciadas é sanear os balanços das instituições financeiras e capitalizá-las. Afinal, o que tornou a crise de 1929 tão grave foi a seqüência quase ininterrupta de quebras bancárias, o que paralisou a economia. Dos 700 bilhões de dólares aprovados pelo Congresso americano, o Tesouro planeja usar cerca de 250 bilhões para injetar dinheiro novo nos bancos. Já o governo alemão propôs a criação de um fundo de cerca de 130 bilhões de dólares para comprar ativos podres e capitalizar as instituições. Outra meta é oferecer recursos para que façam frente às suas obrigações de curto e médio prazo. Nas últimas semanas, os bancos só conseguiram levantar capital no mercado pagando juros inimagináveis até poucos meses atrás. "Além disso, as linhas de empréstimos interbancários estavam paralisadas, o que poderia colocar em risco os sistemas de pagamento", diz Beny Parnes, diretor do banco BBM.



Tudo o que esse ente chamado mercado queria, neste momento, era um sinal de que o mundo não está acabando. Ele teve. Mas nada garante que o estado de nervosismo não volte com eventuais notícias ruins que nenhum oráculo fracassado do passado hoje ousaria prever. "Vimos a reação inicial das bolsas, mas é preciso esperar os reflexos dos pacotes nos mercados de crédito e renda fixa, que é onde estão concentrados importantes gargalos de liquidez", diz Marcus Vinícius Gonçalves, diretor de investimentos da gestora de recursos Franklin Templeton, na Califórnia. Poucos acreditam numa repetição das catástrofes de 1929. E poucos acreditam que a maior crise de nossos tempos simplesmente vá passar, como um pesadelo que acaba com o despertar. No dia em que o pacote europeu foi anunciado, por exemplo, Bill Gates, fundador da Microsoft, declarou que os Estados Unidos caminham para uma "recessão expressiva". Enfim, o quadro continua delicado e a situação inspira todo o cuidado - mas pelo menos os líderes globais começam a agir em consonância com a gravidade do momento.

 

Fonte: EXAME 





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