Aprendizados

AF: Entrevista com Damodaran

21/11/2008


Riscos ocultos
Valor Online, 22/06/2007



Aswath Damodaran é daquelas personalidades que, quando falam, ninguém ousa ignorar. Um dos gurus do mercado financeiro mundial, o indiano professor da Stern School of Business e aplicador do mercado brasileiro diz que, no mundo todo, muitos novos investidores das bolsas não têm a noção correta do risco que correm. "Novos pequenos investidores do mercado estão procurando dinheiro fácil", diz ele, para quem só se aprende exatamente o que é risco depois de uma experiência ruim.



Em entrevista ao Valor por telefone, de Nova York, o guru faz um alerta aos acionistas brasileiros: as ações aqui subiram muito pela conjuntura internacional, o que não significa melhorias na gestão das empresas, principalmente em questões ligadas à governança corporativa.



Autor de best-sellers como "Mitos de Investimentos", Damodaran vem ao Brasil na próxima semana ministrar a palestra "O valor do controle das empresas" a investidores institucionais clientes da Brascan Corretora, no Rio. Para ele, este momento de alta é ideal para que os investidores pressionem os controladores por evoluções na gestão das empresas. A seguir, os principais trechos da entrevista.



Há uma evolução positiva na governança das empresas brasileiras nos últimos tempos?

Aswath Damodaram: Sim, mas as diferentes classes de ações (ON e PN) sempre me incomodaram muito no Brasil e continuam a existir. Com as ações PN, a empresa quer meu dinheiro, mas não quer ouvir minha voz. Mas as coisas têm mudado. As empresas já perdem acionistas de longo prazo por não mostrar como administram a companhia e os acionistas pagam menos por empresas que não conhecem. Isso aconteceu primeiro no Brasil e deve se expandir pela América Latina. Há avanços, mas não o suficiente. Muitas empresas maiores e antigas no mercado ainda têm duas classes de ações.



O senhor acha que as ações preferenciais estão se aproximando do seu fim?

Damodaran: É cedo para dizer isso. Ainda há muitas empresas e famílias controladoras que evitam mudar. É uma longa e dura briga. Investidores no Brasil têm de brigar por seus direitos. Levantar e dizer: não posso votar, portanto não vou pagar tanto pelas ações. Não se pode esperar o governo para defendê-los ou ocorrerão fatos como o da Arcelor. Há um ditado antigo democrático que diz que o povo tem o governo que merece. Isso vale também em termos de governança. Acionistas têm os administradores que merecem.



Essa preocupação existe neste momento de euforia?

Damodaran: Isso torna essas mudanças mais difíceis, porque todo olham para as ações disparando e não pensam em exigir mais direitos. Mas eu acho que são duas questões separadas. A alta das ações brasileiras recente se deve à liquidez mundial e à melhora de percepção do pais. E isso não tem nada a ver com melhora na qualidade de gestão das empresas. Não se deve confundir boa sorte com bom investimento, diz um ditado. Por que os administradores têm de levar o crédito por fatores (macroeconômicos) que não controlam? Este é o momento correto para pressionar controladores a tomar decisões corretas para melhorar a governança.



Muitos investidores brasileiros começam a descobrir o mercado de ações.

Damodaran: Acho isso positivo, porque todos pensam mais na economia. Isso significa que mesmo indivíduos de renda menor acompanham o mercado. É saudável para a economia todos terem investimentos de risco. Porém, mais pessoas estão expostas a esses riscos.



Esses novos investidores sabem que as empresas podem não estar tão bem quanto suas ações?

Damodaran: Hoje, muitos novos pequenos investidores estão procurando dinheiro fácil. É um triste fato, mas o único modo de aprender sobre investimentos é tendo algumas experiências ruins. Assim como no Brasil, na China e na Índia há muitos novos investidores na bolsa, freqüentemente com um senso errôneo de que conseguirão 20% de retorno em pouco tempo sem risco. Meu conselho a esses investidores é: você tem de conhecer a empresa e a gestão, pois não há meios fáceis de fazer dinheiro. Pelo contrário, há muitos caminhos difíceis para fazer dinheiro e é preciso perder para aprender.



O senhor acredita que muitos entram no mercado sem saber de fato do que se trata?

Damodaran: Sim e, como disse, isso não ocorre atualmente apenas no Brasil ou em países emergentes. Mesmo nos Estados Unidos, muitas pessoas entram no mercado de ações sem conhecê-lo. Depois que perdem dinheiro, normalmente reclamam que o governo não os protegeu da queda. Mas, se querem a alta, devem estar preparados para os momentos de baixa.



Como o senhor vê as novas ofertas públicas iniciais no Brasil?

Damodaran: É positivo e isso tem a ver com a boa capacidade dos empresários brasileiros. Uma economia é mais saudável quando as companhias já estabelecidas no mercado são constantemente desafiadas por novas empresas, novos investidores e novas idéias. Fico feliz em saber que o Brasil finalmente abraçou essa tradição.

Recentemente, nossos fundos passaram a poder investir no exterior, como o senhor avalia isso?

Damodaran: É um sinal de maturidade, porque você aceitará competição e poderá vencer. Na Índia, por exemplo, ainda estamos bastante restritos nesse sentido. É bom quando investidores brasileiros olham para o exterior e ainda decidem investir na Embraer, por exemplo. Isso me diz que eles ainda acham que essas companhias são boas. Se tem mercado aberto e as pessoas ainda investem aqui, isso será uma prova de confiança.



Em quais setores da bolsa brasileira o senhor vê maior potencial de valorização?

Damodaran: O setor de manufatura tem grande potencial, como a Embraer e as siderúrgicas. Podem ter problemas as empresas que produzem produtos de baixo custo, pela competição chinesa, e empresas de informática, pela Índia. As commodities são um jogo perigoso, porque subiram demais.





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